• José Costa

Crónica Qatar #1 - MotoGP 2021

O MotoGP voltou num fim-de-semana recheado de entretenimento e, no final, ganhou quem esteve melhor. Foi um optimo tónico para o que nos espera este ano, deixando, ao mesmo tempo, espaço para surpresas no futuro.


A Corrida

A partida ficou marcada por um arranque canhão da maioria dos pilotos da Ducati. Jorge Martin, saiu disparado da 14ª posição, passando a primeira curva em 4º lugar, atrás de Zarco, Miller e Bagnaia. A primeira curva passou sem problema para ninguém, mas logo a seguir, na travagem para a curva 2, Danilo Petrucci abalroou a traseira de Alex Marquez e acabou na gravilha.

(Fotografia: motogp.com)


No final da primeira volta, o cenário pintava quatro Ducatis destacados nas primeiras quatro posições, perseguidos pelas Yamaha’s de Quartararo, Viñales e Rossi; Aleix Espargaró com a Aprilia num fantástico oitavo, Suzuki de Rins e Suzuki de Mir com Miguel Oliveira à espreita do top10. Neste ponto, parecia que o dispositivo de arranque e a potência da Ducati iam levar os pilotos da Ducati para longe dos rivais.


Contudo, era ainda muito cedo. O Circuito Internacional de Losail é um circuito especial no calendário da MotoGP. Por se realizar à noite, devido às temperaturas elevadas durante o dia em Doha, oferece um clima de pista fresca, onde invariavelmente toda a gente escolhe o pneu macio. É por isso, um teste às capacidades de gestão de pneus dos pilotos, assim como à performance directa entre as motos com o dito pneu.

(Fotografia: Polarity Photo)


À terceira volta, Fabio Quartararo sai muito bem da curva 5 e passa Jorge Martin no interior da curva 6, um clássico no Qatar. Pouco depois, na curva 10, foi a vez de Viñales passar Martin que foi gradualmente caindo na classificação. Começou o ataque da Yamaha à liderança, com ambos os pilotos em perfeita sintonia - e, também, com ajuda de algum vento frontal, que abrandou as Ducati nas recta - a reduzirem a vantagem para os 3 homens da frente. Quartararo estava com um ritmo fortíssimo e duas voltas bastaram para chegar até Miller. Depois de uma primeira ultrapassagem, que foi desfeita pelo australiano na recta da meta, foi confirmada na curva um, com uma travagem brilhante de Quartaro. Pouco depois, foi a vez de Maverick Viñales passar a Ducati, demonstrando a superioridade da Yamaha no miolo do circuito.


Mais atrás, Rins e Mir conseguiram eventualmente desembaraçar-se de Martin, Rossi e Espargaró, e tentar a aproximação aos 5 da frente, enquanto Oliveira demonstrava um ritmo fortíssimo, ocupando agora o décimo lugar. Takaaki Nakagami, perdeu a frente na curva 9, durante a volta 7 e saiu de pista agarrado à sua Honda, enquanto escorregava para a gravilha.

(Fotografia: motogp.com)


Perto da décima volta, aos homens da frente juntou-se Rins, que não teve muita dificuldade em ultrapassar Jack Miller. Maverick Viñales, em 4º, seguia serenamente atrás de Fábio Quartaro, esperando o momento certo para atacar que aconteceu pouco depois, quando a corria ia a meio. Não esperou muito mais e passou Zarco, na curva 6 - sem que o homem da Pramac Ducati pudesse esboçar qualquer reação - começando imediatamente a pressão em Pecco Bagnaia.


Por esta altura, Joan Mir e Aleix Espargaró conseguiram ver-se livres de Jorge Martin e seguiram em perseguição a Rins. Já Miguel Oliveira, quando seguia em 9º, não conseguiu passar o piloto italiano tão facilmente, e acabou por ficar empatado num grupo composto por ele, Martin, Pol Espargaró, Rossi, Binder e Bradl, com Alex Marquez e Enea Bastianini logo atrás. Lá para trás, no fundo do grelha, Alex Marquez terminou a corrida deitado na gravilha da curva 4, quando faltavam 9 voltas para o final da corrida.

(Fotografia: motogp.com)


Foi um momento de muita animação na frente da corrida, com muita actividade na frente da corrida. Ao mesmo tempo, Joan Mir e os irmãos Espargaró aproximavam-se de Fabio Quartararo que seguia em 6º, atrás de Alex Rins e Jack Miller.


A 8 voltas do fim, Viñales desferiu o golpe final em Bagnaia. A Curva 10, mais uma vez, a ser o local escolhido pelo espanhol para ultrapassar uma Ducati. Assim que o fez, disparou como uma bala, para obrigar os adversários a queimar a pouca borracha que lhes restava.


Estava entregue o 1º primeiro lugar, mas a corrida ainda não tinha acabado. O segundo e nono classificados estavam separados por apenas 3 segundos e ainda havia muitos pontos em jogo.

(Fotografia: motogp.com)


Joan Mir, o actual campeão do mundo, desfez-se de Jack Miller - que já não tinha ritmo para a malta da frente - começou a aproximar-se gradualmente da luta pelos 2 lugares restantes do podium, com Zarco, Bagnaia e Rins. Rins, já com os pneus muito degradados não ofereceu grande luta a Mir, que a 4 voltas do fim, estava agora em 4º. Depois Bagnaia, pelo 3º lugar. A 2 voltas do fim estava colado a Zarco.


Na recta a Ducati tinha vantagem mas com os pneus já muito desgastados, a suzuki ganhava tempo no miolo. A duas curvas do fim, Mir ultrapassou Zarco, restando apenas a última curva e uma longa recta até à meta. Com a ultrapassagem, Bagnaia ficou muito perto dos outros dois e assim chegaram à travagem para última curva. Mir alargou a trajectória, para se tentar proteger dos ataques das duas ducatis atrás, mas mesmo assim, tanto Zarco como Bagnaia passaram por ele como se estivesse parado.


Um pouco depois passaram Quartararo e Rins, já sem pneus; Aleix Espargaró e Pol Espargaró - ambos com corridas diferente e fabulosas - separados por 56 centésimas; Jack Miller e Enea Bastianini a fechar o top 10.

(Fotografia: Polarity Photo)

Stefan Bradl ainda foi a tempo de passar Valentino Rossi pelo 11º lugar. O Miguel em 13º, quase 4 segundos à frente de Brad Binder e Jorge Martin em 15º, o último pontuável.


Repararam que nem sequer falamos de Franco Morbidelli. Terminou em 18º atrás de Luca Marini e Iker Lecuona . Ainda que nada tenha sido confirmado oficialmente, aparentemente, o italo-brasileiro teve um problema no dispositivo de regulação da altura da traseira da moto - holeshot device, que ajuda os pilotos, durante o arranque, a terem maior tração - que o acompanharam durante a corrida toda. Ficou mais de 20 segundos à frente de Lorenzo Salvatori, o último classificado, por isso nem tudo é negativo.


Assim ficaram os resultados finais:

1.Maverick VIÑALES | Monster Energy Yamaha MotoGP - 42'28.663

2. Johann ZARCO | Pramac Racing Ducati +1.092

3. Francesco BAGNAIA | Ducati Lenovo Team +1.129

4. Joan MIR | Team SUZUKI ECSTAR +1.222

5. Fabio QUARTARARO | Monster Energy Yamaha MotoGP +3.030

6. Alex RINS | Team SUZUKI ECSTAR +3.357

7. Aleix ESPARGARO | Aprilia Racing Team Gresini +5.934

8. Pol ESPARGARO | Repsol Honda Team +5.990

9. Jack MILLER | Ducati Lenovo Team +7.058

10. Enea BASTIANINI | Esponsorama Racing +9.288

11. Stefan BRADL | Repsol Honda Team +10.299

12. Valentino ROSSI | Petronas Yamaha SRT +10.742

13. Miguel OLIVEIRA | Red Bull KTM Factory Racing +11.457

14. Brad BINDER | Red Bull KTM Factory Racing +14.100

15. Jorge MARTIN | Pramac Racing Ducati +16.422

16. Luca MARINI | SKY VR46 Esponsorama +20.916

17. Iker LECUONA | Tech 3 KTM Factory Racing +21.026

18. Franco MORBIDELLI | Petronas Yamaha SRT +23.892

19. Lorenzo SAVADORI | Aprilia Racing Team Gresini +46.346

Não Classificado

20. Alex MARQUEZ | LCR Honda CASTROL - 9 voltas

21. Takaaki NAKAGAMI | LCR Honda IDEMITSU - 6 voltas

Não terminou a 1ª volta

22. Danilo PETRUCCI | Tech 3 KTM Factory Racing - 0 voltas



A Figura

(Fotografia: motogp.com)


Maverick Viñales, sem qualquer dúvida. O piloto espanhol estava nos seus dias. Fez uma das melhores corridas da sua longa carreira. Na primeira parte, aproveitou a boleia de Quartararo e geriu muito bem a vida dos pneus. Não deu um único passo em falso:ultrapassou quando quis e quase nunca precisou de se defender, tal forte era o ritmo. Não é a figura só porque ganhou, mas porque o fez de forma soberba.


A Surpresa

(Fotografia: motogp.com)


Entre a Aprilia e Enea Bastianini, escolho o último, pois a Aprilia já tinha dado sinais bastante positivos durante todo o tempo no Qatar (teste de pré-época incluído). Bastianini recebe o destaque, porque fez uma corrida de trás para a frente, ultrapassando gente muito mais experiente do que ele, terminando num honroso 10º lugar.


O Momento

Acho que o momento pelo qual nos vamos lembrar deste Grande-Prémio, são as últimas curvas do trio Zarco-Bagnaia-Mir. O espanhol confessou que sua intenção era não ultrapassar Zarco, para tentar apanhar o cone-de-ar deste e assim, se proteger de Bagnaia. A sua “ambição, custou-lhe o podium”. É bastante demonstrativo da inteligência de Mir, que já em 2020 nos habituou à sua regularidade e ritmo forte no final da corrida. Ainda assim, este momento também é da Ducati, que mais uma vez demonstra a sua performance em linha recta. Fica o aviso.


O Miguel

(Fotografia: motogp.com)


Foi uma corrida difícil para a KTM, como já se previa. A mota não se dá bem no Qatar, ponto final. É um lugar comum para a KTM no Qatar “jogar para o pontinho” pois as condições do GP não são favoráveis à mota austríaca. Ainda assim, o Miguel fez uma corrida forte. Começou o GP como a melhor KTM e assim terminou, mas foi muito frustrante de ver. As palavras do Miguel no final da corrida ajudam a ilustrar cenário:


“Passar meia corrida a tentar não cair, em vez de competir ao teu melhor, não é a melhor maneira de correr” (..) ”A nossa escolha de pneus é limitada e somos forçados, por causa do ar e da temperatura em pista, a usar apenas 1 tipo de pneus na frente” (pneu macio).


Depois de um arranque fabuloso que levou o português ao 9º lugar, deixou alguma expectativa para um resultado no top 10 mas sem pneus nem confiança para atacar, infelizmente, foi caindo na tabela até ao 13º lugar final. Já por si é uma melhoria: em 2019 o Miguel ficou em 17º, e a melhor KTM em 12º. Pelo quadro de tempos do Miguel (em baixo) percebe-se que, mesmo com os pneus num estado lastimável, o português andou sempre no limite.


A sua sexta volta, a melhor, foi apenas a 11ª mais rápida entre todos os pilotos, mas o ritmo foi muito consistente. Até à décima volta, o Miguel rodou sempre a menos de 5 segundos do 1º lugar. Até à volta 17 perdeu cerca de 2.8 segundos e no final da corrida estava a 11.5 segundos. Se tivesse conseguido passar Jorge Martin no primeiro terço da corrida, talvez conseguisse ficar mais perto do top10. Dadas as circunstâncias, foi uma excelente prova do Miguel, que acabou por melhorar em duas posições o resultado da qualificação e sacar 3 pontos que podem vir a ser importantes.



Para o próximo fim-de-semana há mais uma ronda no Qatar e com certeza que o Miguel e a KTM vão trabalhar para resolver o problema do consumo de pneus e aproximar a performance ao objetivo real: uma lugar no top 10.


Mais informação do site motogp.com, para quem gosta destas coisas:

+ Grelha de Partida

+ Gráfico da Evolução da Corrida

+ Melhor volta de cada piloto





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