• José Costa

Crónica Qatar #2 - MotoGP 21

Atualizado: 6 de abr. de 2021

O grande benefício de ter 2 corridas no mesmo circuito em tão pouco tempo, é poder analisar 2 corridas em condições muito similares (ainda que não totalmente), o que é óptimo para tirar ilações um bocado mais fundamentadas. Decidi, por isso, aproveitar para fazer uma crónica diferente da primeira e ver se o resultado é superior.


Começamos a análise com o Miguel, que teve um arranque fabuloso. Acho que é seguro afirmar, que foi o arranque mais forte da sua carreira. De 12º para 3º (apesar de, na travagem para a primeira curva, ter sido ultrapassado por Aleix Espargaró, ficando em 4º), encheu-me o coração de esperança para o que poderia vir aí. “Com pneu médio na frente???” perguntei a mim mesmo. Comecei a fazer as medições e contas, que alguém na minha posição pode fazer: “Se com o macio faz meia corrida a fundo, com o médio não tem outra escolha que seja prego a fundo durante 22 voltas”. Enquanto isto acontecia por trás da cara, na frente sorria e dançava com expectativa de um lugar no top10. Era o objectivo da KTM e do Miguel e, também aquilo que me parecia ser o mais realista, antes do arranque da primeira corrida no fim-de-semana passado. Chegados ao final da primeira volta, a diferença para o líder Jorge Martin era de um segundo e assim ficou até à 3a volta.

(fotografia: Polarity Photo)


Não esperava que o Miguel fosse ali ficar - uma vez que a grande parte dos favoritos à vitória estavam diretamente atrás de si - por isso, quando começou a cair na tabela, não achei estranho. Quando à décima volta era 11º, comecei a ter flashbacks para há 2 anos atrás, quando costumávamos acompanhar as corridas do Miguel do plano de fundo de quem ia na frente, e fazer figas para que o realizador não cortasse cedo demais para o plano seguinte. Pensei que os pneus médios não tinham sido uma boa escolha, mas pus esta hipótese de lado quando, depois, vi Brad Binder a fazer o caminho inverso ao Miguel, enquanto este caía de forma contínua até ao 15º posto (em que terminou a 8.9 segundos do líder). Para referência, na primeira corrida do ano, o Miguel foi 11.7 segundos mais lento que o vencedor.


No final veio a saber-se que existia um problema no dashboard da KTM RC 16, que impediu o Português de ter as leituras da máquina que opera. A velocidade, rotações (e o indicador de ponto ideal para a troca de mudança), temperatura dos pneus, tempos por volta, e as ajudas de condução: controlo de tracção, anti-wheelie, mapa de potência do motor e a intensidade do travão de motor. É nesta interface onde também são recebidas quaisquer mensagens, tanto da equipa como da direcção de corrida.


“No Qatar é muito importante saber quando temos de trocar de velocidade, pois é um circuito longo e largo. (...) Depois também tem informações sobre o que está a passar com o moto no momento e que nos permitem reagir. Por exemplo, temos 3 possíveis mapas (de potência) e claro, não sabes em qual é que estas. Por isso, tentas adivinhar em qual é que começaste e carregas no botão com a esperança que o mapa correto esteja selecionado.”

(fotografias: Polarity Photo)


“Foi a primeira vez para mim, nunca me aconteceu algo assim no passado. Fazer uma corrida inteira assim, foi muito solitário. Creio que o dashboard ajuda a nos mantermos focados. (...) Foi uma pena termos perdido a oportunidade de fazermos um bom resultado, especialmente numa corrida tão próxima e batalhada, em que podíamos ter lutado pelo top10”


Mesmo com tudo isto, o quadro de tempos do Miguel, mostra que a sensibilidade do piloto português é muito boa, rodando 19 das 22 voltas no em 1’55.


Ainda deu tempo para um recado: “ Senti que a nossa moto não era competitiva (...). Demasiado pesada para mudar de direcção, tornando muito difícil de defender e atacar; e foi muito frustrante” Ao longo de todo o tempo do MotoGP no Qatar, o Miguel veio gradualmente a limar e a melhorar a sua performance e a reduzir a distância para a concorrência, mas era claro que as KTM não estão confortáveis numa pista com as características do Qatar. A estratégia de recorrer aos pneus médios na frente era arriscada, mas revelou-se acertada. Não era mesmo para ser o Domingo que todos queríamos, mas as corridas têm destas coisas.


No final de contas, foi um resultado muito mau para o Miguel Oliveira. Em 50 pontos possíveis nos dois fim-de-semanas, fez quatro. Não estávamos à espera que fosse dominante, mas pelo menos que conseguisse sair em melhor posição que Brad Binder. Ainda assim, dadas as circunstâncias, salvou-se o pontinho que muitas vezes faz a diferença no final do campeonato.

(fotografia: Polarity Photo)


Já que estamos no tema, para mim, Brad Binder foi a surpresa da corrida. Depois de uma primeira volta ao ataque, que o levou do 18º ao 10º lugar, rodou sempre muito próximo do grupo da frente - chegando por vezes a ser dos homens mais rápidos da pista. Foi paciente e batalhador, e terminou num fantástico 8º lugar, a melhor classificação de sempre da KTM no Qatar.


No geral, a corrida não só foi mais rápida que a anterior, como também teve muita animação e drama. Fabio Quartararo foi desta vez a figura; e depois de um arranque difícil, foi subindo na classificação até que a 4 voltas do fim, passa Jorge Martin e toma a liderança da prova para não mais largar. Uma demonstração de força do piloto de 21 anos, que colheu os beneficios de fazer uma corrida inteligente. Um pouco à imagem de Viñales na semana passada, esperou pelo momento certo para atacar e disparou para a vitória.

(fotografia: motogp.com)


"Na semana passada andei um pouco como um amador. Não brinquei com os mapas (de motor) , com os pneus... Fiz o oposto nesta corrida e sabe bem ganhar e ter 2 gajos franceses nas posições 1 e 2."


Atrás, várias lutas animaram o pelotão que seguia sempre muito próximo. A quatro voltas do fim, os 10 primeiros estavam separados por apenas 1.9s (mais ou menos o tempo que demora a dizer: um ponto nove segundos).


A dupla da Pramac Ducati esteve sempre em destaque e fecharam o podium da corrida atrás de Quartararo. Zarco mais uma vez provou que é um excelente piloto. Sempre muito calmo, fez a corrida praticamente toda atrás de Martin e quando o momento chegou, não deu hipótese ao compatriota. Já no podium, lá conseguiu fazer com que Quartararo cantasse ”la marseillaise” em coro, num bonito momento. Zarco sai do Qatar na liderança do campeonato.

(fotografia: motogp.com)


Jorge Martin, apenas na sua segunda corrida de MotoGP, provou que a pole position não foi sorte principiante, e fez uma “corrida muito madura”, que liderou durante a maior parte do tempo. Acabou por perder o segundo lugar para Johann Zarco, já na última volta.


Alex Rins, esteve melhor do que na corrida anterior. Conseguiu ter ritmo para chegar à frente, e tentar intrometer-se na luta pela vitória, mas não teve pedalada para os 3 primeiros nas últimas voltas. Depois de uma luta muito acesa, conseguiu segurar o 4º lugar à frente Maverick Viñales, e Francesco Bagnaia.


Separados por 1.5 segundos chegaram Joan Mir, Brad Binder, Jack Miller, Aleix Espargaró, Enea Bastianini, Franco Morbidelli, Pol Espargaró e Stefan Bradl, ainda que tenham tido corridas muito diferentes.


Joan Mir e Jack Miller protaginizaram aquele que foi, para mim, o momento da corrida.

É certo que Mir forçou a ultrapassagem (depois de várias tentativas muito arriscadas) e tocou em Miller. O que Miller fez (de propósito ou não) na entrada para a recta da meta, também não foi nada bonito. Numa situação, em muito, similar à de Valentino Rossi e Max Biaggi em Suzuka em 2001, só que Miller não foi tão suave com o cotovelo. Analisei as imagens em pormenor e dá-me a impressão que foi com intenção. Não consigo saber o que as outras pessoas estão a pensar, mas a linguagem corporal parece indicar nessa direcção. De qualquer forma, o ponto que queria fazer é que a Dorna, ao não penalizar nenhum dos pilotos (e deviam ser os 2 penalizados), está a criar um precedente muito perigoso. A competição no limite é uma coisa muito bonita de se ver, até alguém se magoar. Sim sim, “são os riscos de um piloto de MotoGP, bla bla bla…” Foi feio e perigoso e não tem lugar numa competição de alto nível como o MotoGP.


Miguel Oliveira fechou o top 15, bem longe de “Il Dottore” Valentino Rossi, Takaaki Nakagami, Luca Marini e Danilo Petrucci. A distância de calendário ficou mais uma vez Luca Salvadori.


Após duas provas no Qatar o Campeonato está assim:

  1. Johann ZARCO - 40 pontos

  2. Fabio QUARTARARO - 36 pontos

  3. Maverick VIÑALES - 36 pontos

  4. Francesco BAGNAIA - 26 pontos

  5. Alex RINS - 23 pontos

  6. Joan MIR - 22 pontos

  7. Jorge MARTIN - 17 pontos

  8. Aleix ESPARGARO - 15 pontos

  9. Jack MILLER - 14 pontos

  10. Pol ESPARGARO - 11 pontos

  11. Enea BASTIANINI - 11 pontos

  12. Brad BINDER KTM - 10 pontos

  13. Stefan BRADL Honda - 7 pontos

  14. Valentino ROSSI - 4 pontos

  15. Franco MORBIDELLI - 4 pontos

  16. Miguel OLIVEIRA - 4 pontos

  17. Luca MARINI Ducati - 0 pontos

  18. Iker LECUONA - 0 pontos

  19. Takaaki NAKAGAMI - 0 pontos

  20. Lorenzo SAVADORI - 0 pontos

  21. Danilo PETRUCC - 0 pontos

  22. Alex MARQUEZ - 0 pontos

(fotografia: motogp.com)


Seguimos para Portimão a dia 18 de Abril (já falta pouco) na expectativa de ver se a KTM e o Miguel em particular voltam à sua melhor forma. Há também a possibilidade de Marc Marquez voltar à competição, o que será interessante de ver. Da minha parte, vou preparar a antevisão para o Grande Prémio de Portugal, para que saia a dia 14, antes de se ligarem os motores.


Até lá, estejam atentos, pois estamos a preparar umas coisinhas engraçadas.


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