• José Costa

Ensaio Inicial do Campeonato de Moto GP 2021-O que podemos esperar parte | 2/2

Atualizado: 15 de fev. de 2021

Na semana passada, terminamos a primeira parte desta antevisão a falar na KTM, que entra em 2021 com a expectativa de continuar o seu desenvolvimento no MotoGP. Depois de muito sucesso nas categorias inferiores, em 2017, a KTM subiu finalmente o degrau que faltava até à categoria rainha da competição, enquanto construtor oficial. Uns meses antes disso, Stefan Pierer - CEO da KTM - disse sobre a entrada da marca austríaca no MotoGP: “Estamos comprometidos em perseguir a meta do título de MotoGP, mesmo que nos leve 10 anos”.


Passados quatro anos desde então, não se pode dizer que a marca tenha estado, em algum momento, perto de qualquer um dos títulos. Pol Espargaró, esteve com a equipa desde o início até ao final de 2020, sem nunca ter vencido uma corrida. Entre 2017 e 2019 teve apenas um pódio! - em 2018, na última corrida do ano em Valência. Contudo, a evolução do espanhol com a RC16 ao longo destes quatro anos é optimista:


MotoGP 2017 - Pol Espargaró: 17º | 55 Pontos

MotoGP 2018 - Pol Espargaró: 14º | 51 Pontos

MotoGP 2019 - Pol Espargaró: 11º | 100 Pontos

MotoGP 2020 - Pol Espargaró: 5º | 135 Pontos


2020 é um ano complicado para auscultar a evolução da KTM, mas foi claro para toda a gente que o ritmo era bem superior a 2019 e consequentemente mais próximo da frente. Por 10 vezes, a KTM teve dois pilotos no top 10. Por quatro vezes teve três. Os seis pódios de Pol Espargaró, a vitória de Brad Binder em Brno e as duas vitórias do Miguel (sim, esse mesmo!), mostram claramente uma equipa com o objectivo muito claro em ser melhor a cada curva. E 2021 vai ter muitas. Bastantes.


Onde pode, realisticamente, chegar a KTM em 2021?

Cautela e entusiasmo parecem ser as palavras chave para este ano. Cautela com a pressão imposta e entusiasmo pelo crescimento até aqui. Na apresentação oficial da KTM, Pit Beirer - Director do Departamento de Competição da KTM - afirmou que “é incrível olhar para trás e ver estas vitórias em grandes prémios, mas não me quero comprometer e dizer que somos já candidatos ao título. Acho que a pressão deve estar no resto da malta no paddock (...)”, dando a entender que uma época similar à de 2020 é a prioridade. Por outras palavras, cimentar as fundações do sucesso alcançado. Já no início do ano, a Beirer tinha dito algo muito similar, aquando da renovação do compromisso da KTM com o MotoGP até 2026: "apesar de terem sido apenas um punhado de épocas, conseguimos pôr este projecto numa base muito sólida, por isso é um passo em frente continuar o nosso envolvimento com o MotoGP até 2026 (...)” , num claro sinal de satisfação com os resultados até ao momento da estrutura de competição. O plano está traçado, e o sucesso da KTM em 2021 vai depender de alguns fatores: a capacidade da estrutura em manter a entrega de material fiável e competitivo aos seus pilotos; e que estes consigam tirar todo o potencial da máquina, sem se atravessarem uns à frente dos outros.

(Fotografia: Philip Platzer)


É expectável que a relação próxima com a Tech3 continue a dar frutos no desenvolvimento da KTM e dos seus pilotos. É natural que Danilo Petrucci sofra um pouco no início na adaptação à KTM, mas a expectativa é que tenha resultados consistentes nos pontos. Será também interessante acompanhar o seu papel no desenvolvimento de Iker Lecuona, com quem partilhará a box em 2021. A qualidade, experiência e a "boa onda" de Petrucci serão uma mais valia para a KTM (e para a Tech3), e o italiano vai querer bater-se com os “meninos” da casa-mãe.


Já na KTM Factory Racing, Miguel Oliveira e Brad Binder vão repetir a dupla KTM Ajo, de 2015 em Moto3 e, mais tarde em 2018, em moto2 - é muito curioso, o quão similares e paralelos são os percursos de ambos os pilotos. Binder, o Rookie do ano 2020, já demonstrou que é um piloto extremamente rápido e será, por isso, a primeira ameaça e o primeiro marcador de tempos do Miguel. O piloto português, não arrancou da melhor forma em 2020 mas fechou com chave de ouro: Vitória avassaladora em Portimão. Nem o Ronaldo seria capaz. O momento alto, ainda assim, aconteceu no GP da Estíria, no Red Bull Ring, com dupla ultrapassagem na última curva a Jack Miller e Pol Espargaró que levou os portugueses às lágrimas.

VAI CA****O!!!

(Fotografia: motogp.com)


E em 2021, Miguel?

O percurso do Miguel Oliveira no campeonato do mundo tem sido genial, especialmente se tomarmos em consideração a dificuldade dos pilotos portugueses jovens em arranjar apoios; e um mercado relativamente pequeno e tendencialmente virado para o futebol.


Dentro de pista, o Miguel é calmo, calculista e focado na abordagem à curva seguinte. Raramente falha uma travagem. Sabe esperar pelo momento certo e aproveitar as oportunidades que lhe surgem. A ultrapassagem no GP da Estíria é prova disso, mas há outros exemplos. Por exemplo, em 2013 na Malásia, ainda na Mahindra:


Em 2021, com a equipa de fábrica vai ter mais oportunidades para o fazer. Com tempo e com paciência vai sentir mais confiança na mota, vai permitir-lhe arriscar um pouco mais - especialmente no início das corridas - sem comprometer. O salto técnico da Tech3 para a KTM, pode até nem ser muito grande, mas é significativo e será determinante no desenvolvimento do Miguel.


Em termos de expectativa, se em 2020, era terminar no top 10 - terminou o campeonato em 9º a 14 pontos do 3º lugar - em 2021 será andar consistentemente dentro do top 5. A verdade é que não está longe disso. Com tudo o que já foi dito sobre a evolução da KTM, o Miguel tem tudo para lá estar.


Por fim, um elogio à forma como se “aguenta à bronca” quando é preciso. Um exemplo recente: à entrada para Portimão, existia a hipótese do chamado “Fairytale Scenario”. Um piloto português a ganhar em Portugal - o que por si só, já era muito pouco expectável em Fevereiro de 2020. A pressão dos media generalistas portugueses foi intensa, acrescida a um aumento da atenção pelos media da especialidade por ser o seu grande prémio, o último de um campeonato com um campeão. Os patrocinadores nacionais puderam finalmente aproveitar o MotoGP e o Miguel Oliveira para ativações de marca. Os fãs, os amigos e a família. É muita gente.

(Fotografia: Polarity Photo)


A execução do Miguel foi perfeita. Para além de uma vitória categórica, juntou-lhe a pole position e a volta mais rápida. Não deu um único passo em falso; não deu a mínima margem para o insucesso. O Miguel pode entrar em 2021 optimista, mas certo que o ano vai ser longo.


Por falar em longo - e mudando bruscamente o tema - longo tem sido o tormento da Aprilia no MotoGP desde que se juntou à competição em 2015. As últimas notícias da marca italiana dão conta de quebra de entendimento com Bradley Smith, o que deve empurrar Luca Salvadori para a segunda mota da equipa, enquanto companheiro de equipa de Aleix Espargaró (irmão mais velho de Pol). Em boa verdade, o histórico da Aprilia no campeonato de MotoGP tem sido pejado de circunstâncias e situações estranhas, que requerem um artigo dedicado, porque tem tanto de interessante como de parvo.


Por fim, este texto não podia estar completo sem uma menção aos Rookies, e curiosamente (ou não) vão todos para a mesma casa italiana.


A Ducati começou por roubar Jorge Martin à KTM, e colocá-lo na Pramac Racing com uma Desmosedici GP21, igual à da equipa de fábrica. Mais tarde confirmou o seu colega de equipa, Johann Zarco. Este vai, em 2021, ter mais uma chance à redenção, com uma mota significativamente melhor do que aquela que tinha ao seu dispor no ano passado.


Enea Bastianini, campeão de moto2 em 2020, sobe ao escalão mais alto da competição, pela mão da Esponsarama, tendo ao seu dispor uma Ducati Desmosedici GP19 com as cores da Avintia. Vai fazer equipa com Luca Marini (meio-irmão de Valentino Rossi) também numa Ducati GP19, mas com o apoio da Sky VR46. É, no fundo, uma plataforma para ambos os pilotos se adaptarem a estar aos comandos de Ducati de MotoGP, e poderem ser avaliados pela marca italiana com o futuro em vista. A combinação de uma equipa com baixas expectativas e uma mota desatualizada pode dar muito bons resultados e permitir aos jovens pilotos crescer bastante.

(Fotografia: esponsorama.ad)


Vamos continuar a contar os dias até ao início do MotoGP e para o tempo passar mais depressa, estamos a preparar mais umas coisinhas. Para ir matando as saudades deixamos aqui uma sugestão:


(fotografia da capa: Philip Platzer)